Quando se fala do problema português da produtividade tende a colocar-se a causa como intrínseca ao nível individual, como se os portugueses tivessem um defeito genético ou um mau hábito adquirido de não produzirem aquilo que deviam. A verdade é que trabalham mais horas do que congéneres europeus de países desenvolvidos. Mas como os gestores e decisores sofrem de um tipo de miopia crónica, fazem-nos trabalhar ainda mais e pagam-lhes ainda menos, equivalendo isso a esperar que um tiro cure uma constipação.
O problema da produtividade está na desorganização, empresarial, institucional, do próprio país. Para exemplo, vejamos como passei uma tarde inteira, mais uma vez a resolver problemas causados pela falta de visão e desorganização consequente.
1 - Sem luz durante dois dias inteiros. Foi este o motivo para uma reclamação escrita que redigi. Mesmo vivendo no litoral, em zona urbana, é possível ficar-se sem fornecimento de energia por 48 horas, e logo sem possibilidade de trabalhar (de fazer o que quer que seja, pois tudo o que fazemos, ainda que não nos apercebamos, depende da electricidade – e não, com céu muito nublado nem ler de dia é possível). Depois de colocar no lixo o que estava congelado (segundo a EDP não são prejuízos pois não são aparelhos eléctricos - e mesmo para estes boa sorte para obterem ressarcimento...), pergunto-me até quando a EDP, lamentavelmente um monopólio, organizará as reparações em função da zona geográfica em que os técnicos se encontrem ou em função do número de afectados (critério economicista), em vez de o fazer em função do número de horas sem corrente (com a óbvia acumulação de prejuízos para o cliente) – será necessário que se torne primeiro uma empresa com verdadeira orientação para o cliente e critérios defensáveis de qualidade, o que levará seguramente mais uma ou duas décadas.
2- Às 3 da tarde estava numa das escassas lojas da empresa Via Verde (VV) existentes no país. Pretendia aderir, já que não há alternativas às ex-SCUT para as minhas deslocações (nem rápidas nem lentas – a A29 foi construída em cima da EN109). Já não distribuíam novas senhas para atendimento. Ou seja, até às 19:30, 4 horas e meia depois, havia pessoas dedicadas a gastar uma tarde (senão mesmo o dia, desde manhã) para pagarem por um serviço a que são obrigadas. Nos CTT não vendem VV, aliás, da última vez que perguntei (a meio de Setembro) não vendiam DEM sequer. A pedir pela página da VV (neste momento offline!), é indicado tratar-se de uma “pré-adesão” (a 5 dias da entrada em vigor das portagens nas ex-SCUT!) e que mais de 20 mil estão em espera. Se este país é bom nalguma coisa é em criar mecanismos para os quais não tem capacidade de resposta.
3 - Tentei que o Metro do Porto me devolvesse € 1,75, o montante que uma das suas extraordinárias máquinas me reteve sem emitir o que quer que fosse a não ser uma nota de crédito (com pressa para apanhar um voo, por milagre tinha mais moedas). Ora isto aconteceu numa deslocação para o aeroporto, e eu não sou frequentador assíduo dos serviços da empresa – azar! Não está previsto nenhum mecanismo para devolução à distância e as “lojas do andante” são poucas e com horários específicos (sim, aquelas cabines com funcionários que encontramos nos metros de Barcelona ou de Paris, é coisa de estrangeiros malucos). Fui à estação da Trindade. Estavam 60 pessoas em fila de espera para serem atendidas (porque será?), e ainda nem eram 4 da tarde. Conhecedor de outras redes de metro, com franqueza vos digo: na do Porto só se aproveitam a gravação audível e a acessibilidade motora; tudo o resto é de uma mediocridade chocante. A empresa não vê com bons olhos programar as máquinas para devolver o dinheiro caso ocorra erro, pelo que se não são utilizadores assíduos, dêem o dinheiro como perdido. Gastariam muito mais a tentar recuperá-lo.
4 - Estive meia hora (não exagero, aliás estou a arredondar por baixo) para fazer 500 metros de carro junto da principal e ampla avenida de Vila Nova de Gaia, a distância entre o El Corte Inglès e a rotunda que dá acesso à via rápida que atravessa a cidade para ligar a A20 à IC2 e à própria A29. Meia hora da vida e perda no poder de compra a considerar a gasolina desperdiçada. Irá levar certamente mais uma década até um engenheiro tentar perceber o problema da sinalização no local e sugerir uma solução; outra década até haver consenso e uma solução ser de facto posta em prática.
5 – Todas estas provações foram suportadas com o estado de espírito deprimido e irritado que caracteriza hoje a nação, mais ainda por estar encharcado da cabeça aos pés. A câmara municipal do Porto (como muitas outras), nunca prepara com eficácia a cidade para as primeiras chuvas do ano, posso portanto atestar que o uso de sapatos não é aconselhável para atravessar rios. Uma nota final sobre a cidade que conheço e amo: é hoje a imagem da degradação, das ruas às paredes, como que votada ao abandono, lúgubre e feia.
«Um dia mau», dirão... Sugiro a todos os que não passam pela vida dentro de um automóvel topo de gama, de casas e gabinetes repletos de conforto, e que têm de tratar eles próprios dos seus assuntos, que contem o número destes dias, manhãs ou tardes, que têm por ano. Este é um dos indicadores mais fiáveis do real estado da nação.
Aos que respondem com o fatídico «é o país que temos...», e o implícito «logo aceita», deixo uma última palavra: troquem de disco e exerçam o vosso dever de cidadania. Se o fizerem, deixarão um país melhor para os vossos filhos. O problema não está em se queixarem, está em não faltarem motivos válidos de queixa.
Da desorganização à exaustão
Sentido por
JO
em
9.10.10
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